Há 10 anos, mina da 2ª Guerra Mundial era encontrada em Maragogi

Um achado explosivo sacudia Maragogi, no Litoral Norte de Alagoas, há exatos 10 anos. Na manhã ensolarada do dia 11 de maio de 2010, operários que trabalhavam nas obras de requalificação do Centro da cidade encontraram, a 70 cm de profundidade, sob o calçamento da Avenida Senador Rui Palmeira, orla marítima da cidade, uma mina naval de flutuação.

O petardo, originário da Segunda Guerra Mundial, fora enterrado ali décadas atrás por um pescador, já falecido. Em mais um dia de pescaria, em busca de cardumes de agulha, ele topou com a esfera metálica com cerca de 1,5 metro de diâmetro e carregada de pólvora.

Trabalhadores encontraram mina durante abertura de galeria (Foto / Arquivo: Waldson Costa)

Com a ajuda de amigos, o pescador a rebocou numa jangada até a costa de Maragogi e a enterrou num local antes inabitado, onde hoje passa a mais movimentada avenida de Maragogi, a Senador Rui Palmeira, corredor do carnaval e de outras festas populares.

No dia 11 de maio de 2010, a mina de flutuação reapareceria. Também naquela manhã, eu me preparava para viajar a São Paulo (SP). Era o meu primeiro dia de férias e passaria o serviço da Sucursal Maragogi ao amigo jornalista Waldson Costa, que me substituiria naqueles 30 dias seguintes.

Lembro que em tom descontraído disse: “Estou saindo em férias e deixando uma pauta bombástica”. Waldson cobriria com maestria o fato e seus desdobramentos iniciais.

Voltando ao achado, os operários cortaram a Avenida Senador Rui Palmeira para reabrir uma galeria de águas pluviais. Inicialmente, a euforia tomou conta dos trabalhadores.

O artefato estava sem os detonadores, que foram removidos ou desapareceram por causa da oxidação de anos a fio. Eles concluíram, então, que a grande esfera metálica se tratava de uma botija.

É que em 2004, também durante obras públicas para a instalação da rede de esgotamento sanitário de Maragogi, operários acharam dois tesouros antigos, abarrotadas de moedas do período Brasil Reino Unido de Portugal – de alto valor histórico -, além de outras relíquias.

Policial observa interior da mina (Foto / Arquivo Waldson Costa)

A notícia logo se espalhou por Maragogi e levou um grande número pessoas à orla marítima da cidade. Em busca dos patacões, os trabalhadores tentaram perfurar o artefato a golpes de pá e picareta; por pouco não provocaram uma tragédia. A euforia inicial foi sendo substituída pela apreensão.

Acionada, a Polícia Militar (PM) avaliou o achado e concluiu que se tratava, na verdade, de uma mina. A área foi isolada e o artefato removido. Içado pela pá de uma retroescavadeira, a mina acabou detonada pelo esquadrão antibomba do Batalhão de Operações Especiais (Bope) na foz do Rio Maragogi, em local desabitado, há época.

A explosão pôde ser ouvida em toda Maragogi e parte de Japaratinga. Ninguém se feriu, mas as estruturas de casas e de um hotel, localizados nas redondezas, sofreram avarias. A notícia do achado da 2ª Guerra Mundial ganhou o noticiário nacional e internacional. O “barulho”, entretanto, estava apenas começando.

Plano de remoção

De volta das férias e já no batente, participei de uma reunião realizada pela Marinha, na sede do 2° Grupamento de Bombeiros Militar, quando foi revelada a existência de um plano de remoção de outras seis minas semelhantes, que estariam, supostamente, enterradas em Maragogi.

Em 27 de setembro de 2010, uma audiência pública discutia e apresentava o plano operacional destinado à remoção e detonação, em local seguro e longe do centro da cidade.

Equipes do Serviço de Engenharia do Batalhão de Fuzileiros Navais (BtlEngFuzNav), do Rio de Janeiro, foram mobilizadas e desembarcavam no município no início de outubro daquele ano. A remoção dos artefatos aconteceria em 20 dias de trabalhos ininterruptos. Esse era o plano.

Novamente a história das minas ganhava o noticiário. O Jornal Nacional deu destaque ao fato. O setor hoteleiro temia que os turistas se afastassem do destino. O que não aconteceu.

No feriadão de 12 de outubro daquele ano, um dia antes do início da operação de remoção dos artefatos no Centro da cidade, a rede hoteleira registrava uma ocupação dos leitos perto de 90%.

O trabalho de escavação dos fuzileiros navais, em busca das minas, até virou, de certo modo, atração para os turistas que acompanhavam à distância a operação, munidos de máquinas fotográficas e celulares. No dia 20 de outubro, a Marinha do Brasil encerrava as buscas por seis minas aquáticas de flutuação que estariam enterradas no solo de Maragogi.

Policiais do Esquadrão antibomba do Batalhão de Operações Especiais (Bope) avaliam mina (Foto / Arquivo: Waldson Costa)

Trava de porta, parafuso, trilho de trem e até uma chaleira antiga. Ao invés das minas marítimas de flutuação, os fuzileiros navais encontraram outros materiais metálicos durante as escavações. Foram 16 dias de sondagens que se mostraram infrutíferas.

Os 12 fuzileiros navais voltavam ao Rio de Janeiro de mãos vazias, mas calejadas pelas escavações feitas em diversos pontos da cidade. Informações desencontradas acerca dos locais exatos onde estariam os artefatos bélicos e a ausência de um equipamento capaz de rastrear o solo com maior alcance e precisão dificultaram os trabalhos. Essas foram as justificativas apresentadas à época.

Escavações foram feitas para tentar encontrar minas, mas nada foi achado (Foto / Arquivo: Severino Carvalho)

O fato é que as minas jamais foram encontradas. A existência delas nunca ficou comprovada. E quanto à origem da primeira e única mina encontrada e detonada pelos militares: quem a lançou?

É provável que, para defender o litoral brasileiro de submarinos da Aliança do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) durante a Segunda Guerra, os Aliados tenham espalhado minas marítimas de flutuação, do tipo encontrado em Maragogi, formando um “canal varrido”, cuja rota segura só os autores sabiam singrar.

As correntes marinhas teriam então, com o tempo, levado tal artefato até a costa. Outra hipótese é que os alemães teriam espalhado minas indiscriminadamente pelo mar com a finalidade ofensiva.

História

Por sua posição estratégica, a capital de Pernambuco foi escolhida para ser sede do Comando Aliado do Atlântico Sul.  Do ponto de vista geográfico, o Porto do Recife atendia as necessidades dos Estados Unidos da América (EUA) de proteger dos ataques nazistas, durante a Segunda Guerra, os navios abarrotados de matérias-primas e produtos.

Em 24 de março de 1941, os EUA instalaram na cidade a Força-Tarefa 3, embrião da Quarta Frota Americana, responsável por escoltar navios mercantes no Atlântico Sul. A guerra ancorava no Recife e seus movimentos bélicos aconteciam e respingavam por toda a costa nordestina, inclusive a alagoana.

Forte / cadeia pública de Porto de Pedras (Foto / Arquivo: Severino Carvalho)

Em Porto de Pedras, no antigo forte / cadeia pública, foi instalada a Companhia de Infantaria, que mantinha um posto de observação do Alto do Farol.

De acordo com o site Naufrágios do Brasil, foi na costa alagoana, em frente a Porto de Pedras, a 70 milhas NE do litoral, que ocorreu o naufrágio do navio inglês Clement, a primeira embarcação do Atlântico Sul afundada ainda no segundo mês de conflito. O barco mercante britânico foi a pique atingido pelo navio de batalha alemão Graff Spee.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s